Carla
entrou no trem correndo, como sempre acontece, depois de levantar cedo,
acordar os filhos, sair de casa com o marido para deixar as crianças na
escola, quase cair ao atravessar a rua, subir escadas, revirar a bolsa
por causa do vale-transporte, ignorar olhares intencionados e mal
intencionados e subir escadas. Pronto, tudo isso em apenas um décimo do
dia em que luta para ficar com os olhos meio abertos.
Cansada
da rotina puxada, Carla percebeu que algo faltara a ela. Não era uma
roupa, uma casa, um emprego: era apenas alguns momentos de descanso.
Naquele dia, resolveu que precisava de uma dose de coragem e disse a si
mesma: "hoje, vou me dar 24 horas de liberdade!". Então resolveu não
descer no ponto em que normalmente descia. Ela estava livre, não
existiam pontos que a pudessem deter. Carla não sabia aonde ia, mas
tinha certeza que chegaria a algum lugar.
Logo
que chegou na Princesa Isabel, Carla passou as mãos no cabelo, arrumou a
barra da saia, puxou a corda e desceu do ônibus na metade do caminho,
bem distante do trabalho. O trajeto da Penha ao Leblon, normalmente duas
horas de seu dia, foi encurtado. Carla começou a caminhar do Leme em
direção ao Posto 6. Depois de quase uma hora de caminhada, puxou uma
pasta da bolsa, colocou sobre o banco e ficou olhando para o rosto
imóvel do Drummond.
Ali
pensou sobre poesia, arte e várias coisas das quais gostava, mas que
tinham se perdido no tempo e nas obrigações. Mas aquele dia não era o
momento de pensar em obrigações, afinal era um dia de liberdade. Carla
resolveu tirar os sapatos e caminhar na areia da praia. Foi até o mar e
as águas frias de Copacabana molhavam delicadamente os seus pés. Naquela
hora, Carla percebeu que a felicidade estava em coisas simples e que às
vezes, para sermos felizes, precisamos pensar um pouco em nós.
No
meio dos pensamentos, o celular tocou. Era o chefe. Carla atendeu
pensando na resposta que daria ao choque de realidade. Afinal, as
obrigações sempre batem a porta até mesmo dos libertos. As 24 horas
teriam de ficar para trás e se resumir nas ultimas duas, mas quem se
importa com o tempo? Carla estava livre de dentro pra fora.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
sábado, 4 de junho de 2011
Papo de Oficina
Roberto marcou de sair com sua noiva Luísa. Os dois combinaram de passar o dia juntos, mas não decidiram o que iam fazer exatamente. O encontro ficou assim indefinido porque ele queria apenas uma oportunidade de passear com o carro consertado.
Luísa ficou um pouco chateada com a falta de iniciativa do noivo para decidir entre os programas de sempre, ou seja, cinema, restaurante, praia ou motel, mas acabou deixando para lá. Os dois mal conseguem se ver. Roberto trabalha fora da cidade e só tem uma folga semanal.
Romantica que é, Luísa sempre espera ansiosa para encontrar Roberto depois de uma semana cansativa, e silenciosamente também espera um sinal de entusiasmo de Roberto. Mas hoje seria diferente, pensou Luisa. Apesar de ter um pessimismo sobre planos para encontrar Roberto, já que ele nunca decidia nada, deixava tudo por conta de Luísa. 'Hoje será diferente!', repetiu.
Já faz algum tempo, uma pulga atrás da orelha da jovem faz com que ela se pergunte sobre a razão de estar com Roberto. Ultimamente os pensamentos mais comuns na cabeça de Luísa são 'ele liga mais para o carro do que para mim?' e 'como vai ser isso quando eu deixar de ser bonita?'.
Roberto, é claro, não ligava para isso. Carro consertado, dia de folga, uma noiva gostosa. Isso tudo ficava repetindo na cabeça dele como um mantra. E nem dá para saber se a ordem dos pensamentos tem algo a ver com ordem de importância. No entanto, Roberto não deveria demonstrar tanta tranquilidade. Ele ainda não sabia de uma coisa.
A sua rotina de trabalho fez com que ele se distanciasse da Luísa, mas não apenas fisicamente. Quando ele deixou o carro para consertar perto da casa da Luísa, não pensou em como isso estragaria sua folga e seu noivado. O mecânico, apesar de novo na oficina, é antigo morador do bairro. Sabe como é, Luísa passando as semanas sozinhas, passando todos os dias em frente à oficina e o Zé Maurício lá, todo dia de olho nela.
Na véspera do encontro dos noivos, por coincidência, Roberto acabou deixando o carro na oficina do Zé Maurício. Depois de explicar o problema do carro, o mecânico começou a prestar atenção na vida do cliente. Noiva que mora aqui perto, uma semana longe, é isso mesmo. Ele é que tá pegando aquela loira do prédio aqui do lado. Então, para estragar o encontro dos dois, ele não fez o serviço completo, velho costume dos mecânicos, mas dessa vez por um motivo mais do que particular.
No dia seguinte, o resultado. Manchete em todos os jornais. Carro capota e casal morre na Brasil. Zé nem ficou sabendo, mas sentiu uma falta de ver a loira todos os dias.
Mais tarde, enquanto lia a manchete nos jornais da banca, Zé Maurício não parou um minuto sequer para pensar se fora egoísta ou invejoso. Agiu, como agem os impetuosos, justificando sua atitude, um tanto macabra, um tanto necessária. Tampouco ficou a se vangloriar em silêncio ao ouvir o burburinho dos comentários dos passantes ante a gravidade do acidente que vitimou o jovem casal. Cada um dos comentários tecia uma nova história de vida diferente para aquele casal, dando conta de uma paixão, que ao cabo dos anos, nem existia mais.
Mais tarde, enquanto lia a manchete nos jornais da banca, Zé Maurício não parou um minuto sequer para pensar se fora egoísta ou invejoso. Agiu, como agem os impetuosos, justificando sua atitude, um tanto macabra, um tanto necessária. Tampouco ficou a se vangloriar em silêncio ao ouvir o burburinho dos comentários dos passantes ante a gravidade do acidente que vitimou o jovem casal. Cada um dos comentários tecia uma nova história de vida diferente para aquele casal, dando conta de uma paixão, que ao cabo dos anos, nem existia mais.
Zé Maurício pediu um exemplar do jornal, retirou-se rapidamente rumo à oficina mecânica e lá pôs-se a ler a notícia com seus óculos tortos sobre a face, saboreando café com leite e pão com manteiga, afinal, para ele, era apenas o começo de mais um dia com notícias ruins no jornal.
Hoje o conto foi produzido com a ajuda do Vinícius, que já colaborou uma vez, da Camila Karina, jornalista, pianista e poeta, e Roberta Fraga, blogueira e escritora, durante a oficina de produção de textos para Internet na UFRJ. A oficina faz parte do ArteFórum. Vale a pena conferir a programação e, se não der tempo de assistir, esperar uma próxima edição.
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
Criatividade
Ela não conseguia dormir, pegava a caneta e o papel e escrevia
desesperadamente, procurava passar a limpo em linhas tortas os sentimentos
já esquecidos. Era difícil, não impossível. A estranheza dos parentes ao
observarem o cotidiano peculiar da moça cuja criatividade deveria ser
considerada como o seu maior talento agora não era a mesma.
Olheiras profundas e feição tristonha tornaram-se parte dela, o rosto
envelhecido não lhe fazia justiça, a face havia mudado em tão pouco tempo, e
nada mais se via da moça bela e sorridente que todos elogiavam tanto.
E o pior dos acontecimentos surgiu-lhe num dia chuvoso e cinzento, sua
editora resolveu ligar bem cedo e dizer com palavras rudes que ela não
precisava mais de seus serviços. A pobre e cansada moça não era mais
necessária. Atualmente, ela só era vista como peso morto para aquela mulher
que antes se jogava aos seus pés.
E ela se jogava mesmo. Afinal, Melina tinha entrado na empresa em um
momento complicado. Atarefada, a editora fazia de tudo para que não
tivesse que fazer muito em relação a ela. A rotina de trabalho que corria
normalmente e com até vários momentos de alegria foi ficando cinza, que
nem o dia da Melina. Ela não sabia que aquele acontecimento mudaria
a relação dela com a chefe, com a família, amigos, namorado, enfim,
transformaria tudo.
Um dia, enquanto voltava para a casa, Melina recebeu uma estranha
mensagem de texto, de Alexandra, sua ex-chefe, chamando-a para um
café. Melina estranhou a atitude, uma vez que Alexandra nunca foi uma
pessoa muito sociável, principalmente com seus funcionários. Enfim,
ignorou a estranheza do contato e resolveu aceitar; talvez pudesse ser uma
oportunidade para voltar a trabalhar para editora.
No local do encontro, estava Alexandra sentada. Ela vestia um terno cinza
e exibia um sorriso sarcástico. Melina observou-a; estranhou novamente a
postura da ex-chefe. Sentou-se junto a ela, pediram um café e perguntou a
razão do encontro.
Alexandra a observou por alguns instantes e, após um momento de suspense
calculado, ofereceu de volta a antiga vaga de Melina. A moça mal acreditou
no que estava ouvindo, porque a relação das duas sempre fora difícil. Em
contrapartida, sabia que apesar do convívio complexo, Alexandra certamente
sentia falta da competência de Melina. O sarcasmo no sorriso, interpretado por
Melina, era na verdade constrangimento causado pelo arrependimento. Mas
agora não havia como voltar atrás. Melina estava livre para criar. Chegara o
momento de gerar sua própria história, não seria mais apenas a condutora de
desesperadamente, procurava passar a limpo em linhas tortas os sentimentos
já esquecidos. Era difícil, não impossível. A estranheza dos parentes ao
observarem o cotidiano peculiar da moça cuja criatividade deveria ser
considerada como o seu maior talento agora não era a mesma.
Olheiras profundas e feição tristonha tornaram-se parte dela, o rosto
envelhecido não lhe fazia justiça, a face havia mudado em tão pouco tempo, e
nada mais se via da moça bela e sorridente que todos elogiavam tanto.
E o pior dos acontecimentos surgiu-lhe num dia chuvoso e cinzento, sua
editora resolveu ligar bem cedo e dizer com palavras rudes que ela não
precisava mais de seus serviços. A pobre e cansada moça não era mais
necessária. Atualmente, ela só era vista como peso morto para aquela mulher
que antes se jogava aos seus pés.
E ela se jogava mesmo. Afinal, Melina tinha entrado na empresa em um
momento complicado. Atarefada, a editora fazia de tudo para que não
tivesse que fazer muito em relação a ela. A rotina de trabalho que corria
normalmente e com até vários momentos de alegria foi ficando cinza, que
nem o dia da Melina. Ela não sabia que aquele acontecimento mudaria
a relação dela com a chefe, com a família, amigos, namorado, enfim,
transformaria tudo.
Um dia, enquanto voltava para a casa, Melina recebeu uma estranha
mensagem de texto, de Alexandra, sua ex-chefe, chamando-a para um
café. Melina estranhou a atitude, uma vez que Alexandra nunca foi uma
pessoa muito sociável, principalmente com seus funcionários. Enfim,
ignorou a estranheza do contato e resolveu aceitar; talvez pudesse ser uma
oportunidade para voltar a trabalhar para editora.
No local do encontro, estava Alexandra sentada. Ela vestia um terno cinza
e exibia um sorriso sarcástico. Melina observou-a; estranhou novamente a
postura da ex-chefe. Sentou-se junto a ela, pediram um café e perguntou a
razão do encontro.
Alexandra a observou por alguns instantes e, após um momento de suspense
calculado, ofereceu de volta a antiga vaga de Melina. A moça mal acreditou
no que estava ouvindo, porque a relação das duas sempre fora difícil. Em
contrapartida, sabia que apesar do convívio complexo, Alexandra certamente
sentia falta da competência de Melina. O sarcasmo no sorriso, interpretado por
Melina, era na verdade constrangimento causado pelo arrependimento. Mas
agora não havia como voltar atrás. Melina estava livre para criar. Chegara o
momento de gerar sua própria história, não seria mais apenas a condutora de
fábulas alheias.
O conto de hoje teve a participação da Renata Costa, minha colega de trabalho, revisora e dona do blog Palavralida. Lá você pode ler as opiniões sobre os mais variados livros que ela devora.
segunda-feira, 21 de março de 2011
Vou sair agora
O conto de hoje recebeu a importante participação da Camila Fernandes, dona do blog Cáah Entre Nós. Depois de ler nossa história, dê uma passada no blog da Camila para conferir todas as histórias dela também.
Já acordei pensando nisso. Não vou dizer que dormi com isso na cabeça porque pensei tanto antes de deitar que me desliguei completamente. Afinal, faz mais de uma semana que queria que hoje chegasse. Chegou, e agora? Estou aqui pensando em sair, na dúvida de ficar, demorando de propósito, fechando janelas, conferindo as coisas, como se o atraso servisse para me estimular a sair logo daqui.
Já acordei pensando nisso. Não vou dizer que dormi com isso na cabeça porque pensei tanto antes de deitar que me desliguei completamente. Afinal, faz mais de uma semana que queria que hoje chegasse. Chegou, e agora? Estou aqui pensando em sair, na dúvida de ficar, demorando de propósito, fechando janelas, conferindo as coisas, como se o atraso servisse para me estimular a sair logo daqui.
Sinto que a hora não está passando. Vejo carros indo e vindo, pessoas andando sem rumo certo. Da minha varanda tudo pode ser visto e ouvido, todavia, ninguém ouve ou vê o que eu gostaria de mostrar. Observar o mundo inteiro girando e girando me dá uma vontade louca de vomitar. Qualquer dia desses posso até pirar.
Daí que ultimamente eu não estava dando conta nem de mim mesma. Não que algum dia eu tenha dado, mas, enfim, sabe como são aqueles dias quando você acorda mais ansioso que o habitual? Pois então, o fato é que essa ansiedade vem de um misto de variáveis recorrentes na minha vida nos últimos dias: aquela conta pra pagar, o trabalho da faculdade não entregue e que está valendo ponto na matéria em que você tá mais fudido, aquele relatório detalhado que o chefe te cobra há meses, aquela ligação que tanto se espera e não vem.
Meu deus, tudo que você queria era deitar numa cama macia, ligar o ar condicionado e fazer assinatura de qualquer programa fútil no pay per view, tipo um BBB da vida, não com intenção de realmente assisti-lo, mas pelo simples fato do prazer de não ter preocupações, não ter ansiedades, não lembrar que existe um mundo lá fora te cobrando milhares de afazeres que você mal tem coragem de abrir os olhos de manhã ao acordar só de pensar em cada um deles.
Pensar tanto na minha vida e esquecer de resolver os problemas que vou criando por onde passo é o meu pior defeito. E ainda vem essa ansiedade exagerada me impor receios e intrigar minha cabeça. Fico cismando tantas coisas, deixando o medo ganhar espaço, não consigo entender aonde isso pode me levar. Eu sei das metas mais não sei como terminar. O que a vida ainda me reserva? O quê?
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Samba
Esse conto também foi publicado entre os Minicontos Perversos, e está fazendo um pequeno sucesso entre os perversos leitores das maldades e safadezas que o Gustavo apresenta a todos. Então, depois que você ler essa história, dê uma passada por lá, mas volte aqui, ok? Não deixe o samba morrer.
A roda de samba teve fim. Dois paradoxos. O primeiro porque imaginamos que tudo que é redondo não termina. O segundo foi o próprio término do sambão. O churrasco do Aldemar tinha cerveja de sobra. A festa rolou ao som de muita música e carne, às vezes bem, às vezes mal passadas. Nem todo mundo foi embora sabendo o que fez o samba morrer. Ciúmes.
Aldemar amava Rosa, que por fim também amava Aldemar. Mas vinha sentindo uma mudança. Não sabia se o clima, se o vento invertera a direção ou se a música tocava diferente ultimamente. Só se sabia estranha. Algo em seu corpo parecia o rejeitar subitamente, o que só amenizava com algumas cervejas. Ah, como vinha bebendo ultimamente! Naquele dia, ali, no samba, ela percebeu-se olhando para um dos músicos.
Era um moreno alto, esbelto, de olhos verdes e penetrantes. Tão penetrantes que pareciam invadir a alma de Rosa num simples golpe de vista. De certa forma, aquele olhar reunia nela um misto de vergonha, de medo e de tesão, sensações que há muito não sentia nos olhos frios e autoritários de Aldemar. Aliás, de Aldemar, nos últimos tempos, só tem recebido olhares de indiferença.
Rosa já tinha bebido um pouco a mais e, mesmo sabendo que Aldemar estava por lá, resolveu se engraçar com aquele moreno que lhe provocava arrepios. Chegou no meio da roda e sambou como nunca mais tinha sambado pro Aldemar. Logo ela recebeu olhares do Jair, que já cantava com mais sensualidade. Jair largou o microfone, levantou e os dois pareciam estar completamente sozinhos na roda, se sentindo.
Aldemar estava feliz. Seu corpo pulsava ao ritmo do samba. Ele sorria olhando os amigos e aquela linda morena a quem amava, a seu jeito. Rosa estava especial aquele dia. A morena dançava como nunca, rodopiante e sensual. Excitava-o tê-la ao lado. Seu corpo, sorriso, suor, seu olhar. De repente percebeu que Rosa também sorria. Um sorriso apontado noutra direção. Na outra ponta do olhar da Rosa, Aldemar viu um Jair e um cavaquinho.
A roda de samba teve fim. Dois paradoxos. O primeiro porque imaginamos que tudo que é redondo não termina. O segundo foi o próprio término do sambão. O churrasco do Aldemar tinha cerveja de sobra. A festa rolou ao som de muita música e carne, às vezes bem, às vezes mal passadas. Nem todo mundo foi embora sabendo o que fez o samba morrer. Ciúmes.
Aldemar amava Rosa, que por fim também amava Aldemar. Mas vinha sentindo uma mudança. Não sabia se o clima, se o vento invertera a direção ou se a música tocava diferente ultimamente. Só se sabia estranha. Algo em seu corpo parecia o rejeitar subitamente, o que só amenizava com algumas cervejas. Ah, como vinha bebendo ultimamente! Naquele dia, ali, no samba, ela percebeu-se olhando para um dos músicos.
Era um moreno alto, esbelto, de olhos verdes e penetrantes. Tão penetrantes que pareciam invadir a alma de Rosa num simples golpe de vista. De certa forma, aquele olhar reunia nela um misto de vergonha, de medo e de tesão, sensações que há muito não sentia nos olhos frios e autoritários de Aldemar. Aliás, de Aldemar, nos últimos tempos, só tem recebido olhares de indiferença.
Rosa já tinha bebido um pouco a mais e, mesmo sabendo que Aldemar estava por lá, resolveu se engraçar com aquele moreno que lhe provocava arrepios. Chegou no meio da roda e sambou como nunca mais tinha sambado pro Aldemar. Logo ela recebeu olhares do Jair, que já cantava com mais sensualidade. Jair largou o microfone, levantou e os dois pareciam estar completamente sozinhos na roda, se sentindo.
Aldemar estava feliz. Seu corpo pulsava ao ritmo do samba. Ele sorria olhando os amigos e aquela linda morena a quem amava, a seu jeito. Rosa estava especial aquele dia. A morena dançava como nunca, rodopiante e sensual. Excitava-o tê-la ao lado. Seu corpo, sorriso, suor, seu olhar. De repente percebeu que Rosa também sorria. Um sorriso apontado noutra direção. Na outra ponta do olhar da Rosa, Aldemar viu um Jair e um cavaquinho.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Assalto
Olhei para um lado, olhei para o outro. Fui. Tudo assim mesmo, poucas palavras e poucos pensamentos. Não tinha tempo. Cara, já levei umas porradas hoje. Se eu for falar da vida inteira, tudo junto, você poderia até pensar que eu já morri, mas não. Continuo na luta. Sou um guri mesmo, que nem o do Chico.
Atravessei a rua correndo. A dona, sozinha, nem me viu. Facinho. Então, sem pensar muito, puxei rápido a bolsa, como fiz nas outras vezes. A parada prendeu, puxei de novo e a mão não dela não soltava.
Olhei puto pra dona e me deparei com enormes espelhos azuis. Me olhavam, mas não com o medo que as pessoas geralmente sentem de mim. Vi ali, por algum motivo, compreensão e pena. Como aqueles olhos podiam me entender?! Sabe nada da minha vida! Tava ficando louco? Porra, não! Ela não podia entender quem eu era. Quem é ela pra me julgar? Nem minha mãe pode me julgar.
E eu até comecei a ficar pensando mesmo. O que eu ia fazer com ela me olhando. Durou pouco e, se eu fosse ficar lá filosofando, ia até começar a dizer que os olhos grandes azuis dela eram isso mesmo, dois olhos azuis grandes de gente grande, olhos grandes de sangue azul, vermelhos de raiva por dentro. Cara, mas não dá tempo. Se eu achar que é tudo casa grande e senzala fico sem a bolsa que era dela. Agora é minha. Os documentos posso até jogar por aí, mas a bolsa é minha.
Resolvi cheirar uma carreira pra sair daquela viagem louca. Tinha que subir o morro para comprar o pó. Mas, se eu chegasse na favela com bolsa roubada, geral ia falar que eu tinha roubado no asfalto. E, aí, mermão, fudeu! Na favela, também tem lei. Se soubessem dessa parada, iam me dar uns tiros e jogar meu corpo na vala. Porra, quero morrer desse jeito não. Não ia dar nem tempo de me despedir da minha avó.
Parei de pensar muito, catei o dinheiro e o celular da dona e fui pra outra boca comprar meu pó. Cara, cheirei tudo! Depois que o efeito passou, me veio na mente a imagem da dona e dos olhos azuis. Comecei a ficar bolado com essa parada rodando minha cabeça. Sabia que tinha que me livrar da porra dos documentos e da bolsa pra não lembrar mais da velha.
Pra não ficar de bobeira com a bolsa de couro da madame, dei uma lavada nela. Minha avó é meio cega. Acabou que eu dei a bolsa pra ela mesmo. Minha vó ficou lá toda feliz de bolsa nova. Eu, por um tempo achei que tinha me livrado daquela sensação estranha, mas agora toda vez que vejo a bolsa e a minha avó, me lembro daqueles olhos azuis. Será mesmo que eles me entendiam?
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
No calor
Era uma tarde de verão como outra qualquer. O calor intenso derretia até os nossos pensamentos. E a volta para casa era cada vez mais tortuosa. O ônibus cheio e quente; o trânsito, estático. E o desespero... este era incontrolável. A vontade era de gritar, correr, desaparecer. Embora aquele fosse mais um dia de verão no Rio de Janeiro, havia um sentimento forte, que fazia com que eu reparasse em todas as coisas com um olhar diferente; um olhar desesperador.
Vivendo em uma long and winding road com um calor dos infernos, era assim que eu me sentia naquelas horas. O dia já não era tão importante, pois o calor tomava conta de tudo. Minha indecisão ia aumentando, criando uma névoa fechada. E a minha dúvida só diminuía quando eu ficava com raiva das pessoas em trajes de banho, enchendo os ônibus e as ruas de areia. A inveja só servia para que eu não enlouquecesse de vez com os meus pensamentos. Já em casa, de saco cheio da situação, apenas lavei o rosto e fui até lá resolver meus problemas.
Não sei se foi o calor, não sei se foi a angústia de ver a situação resolvida. Só sei que as coisas não podiam continuar do jeito que estavam. Peguei o telefone, com os dedos trêmulos e indecisos. Respirei fundo. O suor escorria livremente pelos meus poros. Disquei aquele número que eu já sabia de cor.
Ele atendeu:
- Oi, querida, tudo bem?
- Tudo. Preciso falar com você.
- Eita! Diz logo então, vai.
- Não posso mais continuar assim, não posso mais mentir, não posso manter nosso relacionamento.
- Por quê????
- Sou lésbica.
- Vai tomar um banho e esfriar a cabeça, amor.
- Já tomei.
- tu tu tu tu...
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Alice, acorda!
Esse conto é sobre uma menina que percebe as sutilezas de cada coisa que acontece a sua volta. Ela vive em um mundo onde passarinhos falam, as paredes escutam e os ventos trazem boas notícias. Mas, por ora, não tem batido nem um brisa.
A menina nunca vivia só. E mesmo que não houvesse ninguém no quarto, onde ela gostava de passar horas trancada, sempre havia alguém com quem conversar. O Sr. Abajur contava histórias de Paris. As canetas, fofoqueiras, falavam da vida alheia. Mas sua melhor amiga era a cama. Vez por outra, a mãe da menina passava e ouvia a voz solitária da menina, a conversar com o invisível, e achava que era coisa da idade. Mas quanto mais o tempo passava, o comportamento da menina não mudava. E a mãe começava a se preocupar.
Alice era bastante elogiada em tudo o que fazia. Ela dizia que o ingrediente principal para uma coisa dar certo era o amor. Ela amava, e como amava! Dona cama que o diga, passava horas e horas escutando as histórias de Alice agarrada ao Sr. Travesseiro, que no final das contas sempre acabava ensopado com as lágrimas de chocolate que escorriam de seus olhos. "Amo o que não existe", ela dizia. E isso preocupava muito sua mãe.
Médicos, psicólogos e até psiquiatras a menina visitou. Mas todos com a mesma resposta: "saudável e inteligente sua filha é, Dona Mariquinha. Não tem nada de errado com a moça. Sonhar faz parte e a imaginação é o maior dom que ela tem".
Mariquinha não acreditava muito em imaginação. Apesar de ser fruto de uma senhora muito imaginativa. Afinal, como alguém pode escolher tal nome para a própria filha sem muita criatividade? A preocupação exagerada, cada vez mais frequente em relação a filha, fez com que Mariquinha não percebesse certos sinais. Objetos domésticos eram os novos amigos da Alice. Não era só um abajur, nem uma cama, muito menos um travesseiro. Eram senhores e senhoras, com pompa e intimidade ao mesmo tempo.
Mesmo acreditando que tudo isso não passava de mera ficção criada pela filha, Mariquinha não estava aguentando a pressão de toda essa imaginação. Muitas vezes, não sabia o limite entre o que era real e o que era ficcional. Por outro lado, Alice, presa em sua imaginação, também passava pelo mesmo dilema. Se tudo aquilo que ela havia criado não poderia ser considerado real, afinal, o que poderia? E se não poderia viver a sua realidade, qual seria a razão para viver?
Alice confessou sua angustia à mãe, que, por sua vez, também confessou o que sentia em relação aos passarinhos falantes e objetos dançantes. Então, como saída para os seus problemas, Alice e Mariquinha resolveram viajar. Viajar para o eterno. Esse é um conto que não é de fadas, que não é real, mas fala de uma parte da história que ninguém nunca contou: o dia em que Alice morreu.
O conto de hoje teve a participação da Amanda (@MandynhaBarbosa). Ela é assídua no twitter e divide um blog com a Lara Spinoza (@laarices), nossa colega de contos.
A menina nunca vivia só. E mesmo que não houvesse ninguém no quarto, onde ela gostava de passar horas trancada, sempre havia alguém com quem conversar. O Sr. Abajur contava histórias de Paris. As canetas, fofoqueiras, falavam da vida alheia. Mas sua melhor amiga era a cama. Vez por outra, a mãe da menina passava e ouvia a voz solitária da menina, a conversar com o invisível, e achava que era coisa da idade. Mas quanto mais o tempo passava, o comportamento da menina não mudava. E a mãe começava a se preocupar.
Alice era bastante elogiada em tudo o que fazia. Ela dizia que o ingrediente principal para uma coisa dar certo era o amor. Ela amava, e como amava! Dona cama que o diga, passava horas e horas escutando as histórias de Alice agarrada ao Sr. Travesseiro, que no final das contas sempre acabava ensopado com as lágrimas de chocolate que escorriam de seus olhos. "Amo o que não existe", ela dizia. E isso preocupava muito sua mãe.
Médicos, psicólogos e até psiquiatras a menina visitou. Mas todos com a mesma resposta: "saudável e inteligente sua filha é, Dona Mariquinha. Não tem nada de errado com a moça. Sonhar faz parte e a imaginação é o maior dom que ela tem".
Mariquinha não acreditava muito em imaginação. Apesar de ser fruto de uma senhora muito imaginativa. Afinal, como alguém pode escolher tal nome para a própria filha sem muita criatividade? A preocupação exagerada, cada vez mais frequente em relação a filha, fez com que Mariquinha não percebesse certos sinais. Objetos domésticos eram os novos amigos da Alice. Não era só um abajur, nem uma cama, muito menos um travesseiro. Eram senhores e senhoras, com pompa e intimidade ao mesmo tempo.
Mesmo acreditando que tudo isso não passava de mera ficção criada pela filha, Mariquinha não estava aguentando a pressão de toda essa imaginação. Muitas vezes, não sabia o limite entre o que era real e o que era ficcional. Por outro lado, Alice, presa em sua imaginação, também passava pelo mesmo dilema. Se tudo aquilo que ela havia criado não poderia ser considerado real, afinal, o que poderia? E se não poderia viver a sua realidade, qual seria a razão para viver?
Alice confessou sua angustia à mãe, que, por sua vez, também confessou o que sentia em relação aos passarinhos falantes e objetos dançantes. Então, como saída para os seus problemas, Alice e Mariquinha resolveram viajar. Viajar para o eterno. Esse é um conto que não é de fadas, que não é real, mas fala de uma parte da história que ninguém nunca contou: o dia em que Alice morreu.
O conto de hoje teve a participação da Amanda (@MandynhaBarbosa). Ela é assídua no twitter e divide um blog com a Lara Spinoza (@laarices), nossa colega de contos.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Cego
Meu nome é Paulo e tenho vinte anos. Nasci com uma doença que comprometeu a minha visão desde que nasci.
Meu maior desejo era poder descobrir as cores, as formas, a beleza das coisas. Poderia crescer triste e frustrado por isso. No entanto, este desejo fez com que eu desenvolvesse uma grandiosa habilidade: a pintura.
Sabe quando algo te completa? Então, é assim que me sinto ao pintar quadros com meus sentimentos e sentidos mais aguçados. Mas tenho um sonho que gostaria de realizar, fazer a pintura de minha amada e conseguir olhar para ela e ver em seu rosto a expressão de felicidade. Sei que gostam dos meus quadros, pois sinto isso.
Mas acredito que não tem nada tão prazeroso quanto ver nos rostos das pessoas que a sua arte produz felicidade. Enquanto esse milagre não acontece, não me lamento, pois procuro descobrir prazeres de outras formas.
Sou feliz, pois tenho minha arte, meu amor, minha família e é por conta disso que estou vivo e vivendo. Pintar é um mundo de sonhos e, enquanto imagino as cores, ninguém enxerga mais do que eu.
Mas quero viver na realidade, não em um conto de fadas. Pois nem toda dificuldade é bem vista pela sociedade, existem preconceitos que deveriam ser quebrados.
Tá aí um outro sonho meu, e esse não precisa de milagre e sim de pessoas que tenham, no mínimo, empatia. E não me venham com mensagens de final de novela. Não preciso disso para viver a vida.
O conto de hoje teve a participação da Yukari, ex-colega de trabalho. Se quiser saber mais sobre ela, clique aqui.
Meu maior desejo era poder descobrir as cores, as formas, a beleza das coisas. Poderia crescer triste e frustrado por isso. No entanto, este desejo fez com que eu desenvolvesse uma grandiosa habilidade: a pintura.
Sabe quando algo te completa? Então, é assim que me sinto ao pintar quadros com meus sentimentos e sentidos mais aguçados. Mas tenho um sonho que gostaria de realizar, fazer a pintura de minha amada e conseguir olhar para ela e ver em seu rosto a expressão de felicidade. Sei que gostam dos meus quadros, pois sinto isso.
Mas acredito que não tem nada tão prazeroso quanto ver nos rostos das pessoas que a sua arte produz felicidade. Enquanto esse milagre não acontece, não me lamento, pois procuro descobrir prazeres de outras formas.
Sou feliz, pois tenho minha arte, meu amor, minha família e é por conta disso que estou vivo e vivendo. Pintar é um mundo de sonhos e, enquanto imagino as cores, ninguém enxerga mais do que eu.
Mas quero viver na realidade, não em um conto de fadas. Pois nem toda dificuldade é bem vista pela sociedade, existem preconceitos que deveriam ser quebrados.
Tá aí um outro sonho meu, e esse não precisa de milagre e sim de pessoas que tenham, no mínimo, empatia. E não me venham com mensagens de final de novela. Não preciso disso para viver a vida.
O conto de hoje teve a participação da Yukari, ex-colega de trabalho. Se quiser saber mais sobre ela, clique aqui.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Noiva
Nos meus sonhos, seria um lugar com janelas e portas transparentes, para que pudesse contemplar toda a vista que tenho lá de fora. Uma casa, aquelas com uma vista pro mar,acho que seria pedi muito (não custa nada sonhar). Gostos? Temos diferentes. Ele adora café e eu, chá, mas ambos podem ser tomados em nossas canecas.
No quarto, uma mesinha daquelas que só servem mesmo para bater com o joelho, para eu me lembrar do meu quarto de solteira, o qual não gostaria nunca de esquecer, pois foram épocas boas. Lençóis claros como o nosso respeito, respeito esse que foi conquistado com muito amor. Eu sonho com ele me acordando, daquele jeitinho que só ele sabe. Quero muita coisa, muitos sonhos e quero muita realidade também.
Se houver problemas, podem até ser muitos, mas que possamos esmagar as dúvidas, os medos, as contas a pagar, os planos fracassados e o que mais quiser afrontar a gente. Nossa casa será lugar de grandes confusões de alegria.
E confusões e alegrias, é claro, ficam mais saborosas com filhos. Desejo logo um casal de gêmeos, porque não quero ficar gorda e deformada com duas gravidezes seguidas. Não há amor que resista anos a fio sem o tempero da atração física, não é verdade? Não que eu me importe com essa coisa de padrão de beleza, nada disso. Mas, como dizem, a propaganda é a alma do negócio!
Dinheiro? Nem muito, nem pouco. Só o suficiente para ser feliz, sem ter que pedir felicidade aos outros. Quero que tudo seja só nosso, feito por nós e usufruído por nós. Afinal, um pouco de egoísmo é necessário e nunca matou ninguém.
Quero, por fim, a eternidade. Eternidade do amor, dos singelos momentos de felicidade, de um doce olhar e da companhia dele. Porque história como a nossa, o tempo não leva. Ele eterniza.
E, assim, prometo ser fiel ao amor dele, mesmo que a morte nos separe.
No quarto, uma mesinha daquelas que só servem mesmo para bater com o joelho, para eu me lembrar do meu quarto de solteira, o qual não gostaria nunca de esquecer, pois foram épocas boas. Lençóis claros como o nosso respeito, respeito esse que foi conquistado com muito amor. Eu sonho com ele me acordando, daquele jeitinho que só ele sabe. Quero muita coisa, muitos sonhos e quero muita realidade também.
Se houver problemas, podem até ser muitos, mas que possamos esmagar as dúvidas, os medos, as contas a pagar, os planos fracassados e o que mais quiser afrontar a gente. Nossa casa será lugar de grandes confusões de alegria.
E confusões e alegrias, é claro, ficam mais saborosas com filhos. Desejo logo um casal de gêmeos, porque não quero ficar gorda e deformada com duas gravidezes seguidas. Não há amor que resista anos a fio sem o tempero da atração física, não é verdade? Não que eu me importe com essa coisa de padrão de beleza, nada disso. Mas, como dizem, a propaganda é a alma do negócio!
Dinheiro? Nem muito, nem pouco. Só o suficiente para ser feliz, sem ter que pedir felicidade aos outros. Quero que tudo seja só nosso, feito por nós e usufruído por nós. Afinal, um pouco de egoísmo é necessário e nunca matou ninguém.
Quero, por fim, a eternidade. Eternidade do amor, dos singelos momentos de felicidade, de um doce olhar e da companhia dele. Porque história como a nossa, o tempo não leva. Ele eterniza.
E, assim, prometo ser fiel ao amor dele, mesmo que a morte nos separe.
Esses são os meus votos do nosso casamento.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Re-volta
Uma mulher, não como todas as outras. Marta era singular em sua maneira de viver. Por falar em viver, Marta morava em uma rua onde quase não tinha vizinhos e o único contato que tinha era com seus pensamentos. Porém, já era acostumada a vida solitária que a consumia desde sua infância.
Ela gostava de caminhar durante a noite e, em uma de suas caminhadas, Marta sentiu o frio arrepiando seu corpo e se deu conta de que não tinha quem a aquecesse. Então ela resolveu voltar para casa e procurar uma antiga agenda com telefones e endereços de vários amigos. Mesmo assim, por mais que houvesse muitos nomes na lista, ainda assim se sentia só. Lembrava rostos, cheiros e histórias, todos num passado tão distante que não a encorajavam a ligar. Houve época em que fora feliz? Tivera amigos? Sentira-se bem?
Embora fosse um hábito de anos, dessa vez ela não quis ligar para Teresa. Não era nem por pensar que Teresa achava muito chato ouvir as lamentações. Afinal, Teresa achava mesmo. As amizades têm dessas pequenas liberdades de expressão. Assim, Marta pegou um vestido no armário, uma sandália e resolveu que o jeito de amenizar o que sentia era indo de encontro à multidão. Depois de vestida e maquiada, ela foi à uma boate perto de casa.
Na boate, ela dançou e se libertou como nunca de suas lamentações e anseios de estar tão longe daqueles que lhe eram importantes. Até encontrou lá um tal de Antero, moço moreno dos braços fortes com quem dançou a noite inteira.
Acabou-se a música, o sol se espreitava entre as nuvens e o movimento na rua voltava lentamente. Antero, o moreno de braços fortes, também foi embora. E, Marta, voltara para casa na companhia de sua solidão. Ao retornar, percebeu que não precisava de ninguém para tornar sua vida mais interessante.
Ela gostava de caminhar durante a noite e, em uma de suas caminhadas, Marta sentiu o frio arrepiando seu corpo e se deu conta de que não tinha quem a aquecesse. Então ela resolveu voltar para casa e procurar uma antiga agenda com telefones e endereços de vários amigos. Mesmo assim, por mais que houvesse muitos nomes na lista, ainda assim se sentia só. Lembrava rostos, cheiros e histórias, todos num passado tão distante que não a encorajavam a ligar. Houve época em que fora feliz? Tivera amigos? Sentira-se bem?
Embora fosse um hábito de anos, dessa vez ela não quis ligar para Teresa. Não era nem por pensar que Teresa achava muito chato ouvir as lamentações. Afinal, Teresa achava mesmo. As amizades têm dessas pequenas liberdades de expressão. Assim, Marta pegou um vestido no armário, uma sandália e resolveu que o jeito de amenizar o que sentia era indo de encontro à multidão. Depois de vestida e maquiada, ela foi à uma boate perto de casa.
Na boate, ela dançou e se libertou como nunca de suas lamentações e anseios de estar tão longe daqueles que lhe eram importantes. Até encontrou lá um tal de Antero, moço moreno dos braços fortes com quem dançou a noite inteira.
Acabou-se a música, o sol se espreitava entre as nuvens e o movimento na rua voltava lentamente. Antero, o moreno de braços fortes, também foi embora. E, Marta, voltara para casa na companhia de sua solidão. Ao retornar, percebeu que não precisava de ninguém para tornar sua vida mais interessante.
Finalmente, ao menos por uma noite, Marta percebeu que ela se bastava. Só seus pensamentos, emoções e a vida que pulsava a seu redor. Só o que precisava era, às vezes, sair da rotina, quem sabe alguns momentos de revolta, de encontro. Era o suficiente para que sua vida se tornasse intensa da maneira Marta de ser. Não era uma revolta, mas uma re-volta, para ela.
O conto de hoje saiu no blog da Milena, mais uma integrante da nossa equipe. Ela é estudante de História e tem um blog muito interessante. Clique aqui para dar uma olhada.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Seguidores
Clarissa era uma estudante do segundo ano do Ensino Médio. Durante as horas vagas, costumava ter os passatempos de qualquer adolescente normal, leia-se, principalmente, entrar na Internet. Ela participava de todas as redes sociais que se pode imaginar. De MSN a Twitter, passando pelo clássico Orkut até os mais recentes, como o Formspring. Entretanto, os pais de Clarissa começavam a se preocupar, achando que a jovem não sabia mais a diferença entre vida real e vida virtual.
A jovem costumava virar noites em frente ao computador, estava por dentro de todas as novidades virtuais e conversava com pessoas de diversas cidades espalhadas pelo país. Entre os seus amigos mais próximos estava o Gabriel, um roqueiro que morava em uma pequena cidade no interior do estado. O rapaz sempre dizia que um dia viajaria até a capital para conhecer a jovem internauta.
Mas Clarissa não ligava para a visita, pois tinha um namorado virtual, que a observava através da câmera. Ele podia vê-la e ela não, já que o rapaz não tinha câmera. A menina adorava se exibir e criou um vínculo tão forte que passava os dias pensando somente em voltar para a frente do olhar extático da webcam.
Os dias se passaram e as férias vieram. A pele de Clarissa perdeu a cor, os cabelos encresparam e o ar do quarto, mal limpo nos espaços que ela dava à mãe, se enchia do cheiro ocre de pele e suor. As palavras na tela eram dominadoras, cada vez mais submetiam Clarissa à sua vontade. Como um oráculo, o rapaz sabia o que a menina desejava e dominava seu desejo como um jogador de baralho controla as cartas antes de distribuí-las a seus pares.
Como ela não dava muita bola para as vontades dele, aos poucos, Gabriel foi diminuindo a quantidade de cantadas e de pedidos para conhecê-la pessoalmente. Ele raramente entrava na Internet. Seus momentos na Rede se chamavam Clarissa.
A recusa da menina em conhecê-lo fez com que ele o que era uma vontade real se tornasse virtual. Um dia ela teria que vir, pensava ele. Assim, escondido cada vez mais atrás do monitor, o desejo de ver Clarissa pessoalmente deixou de ser uma coisa única, tornou-se binário. E, embora ela fosse o 1, ele era o 0.
O conto de hoje contou com a participação de Lara (@Lara_Utzig). Ela é estudante de Letras e tem um blog muito interessante. Clique aqui para dar uma olhada.
Além disso, no começo do texto, eu lembrei de um vídeo do meu outro blog. Cique aqui para assistir Voyeur On-line.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A Hora Mágica
Cíntia estava deslumbrada. Nunca achou que uma notícia pudesse ser tão boa. Após sete anos de casamento, ela finalmente engravidou. O marido já estava preocupado com coisas e problemas puramente masculinos. Afinal, quem ia jogar bola, levar à praia, falar sobre aquelas coisas que a mãe jamais poderia ouvir?
Julio, seu marido, queria entender aquele momento pelo qual esperou tanto tempo e em busca do qual aplicou suas economias, sua paciência com as crises da esposa e seu tempo livre com as incansáveis idas a especialistas. Desceu e cruzou com os vizinhos sorridentes, ganhou a Rua e caminhou até a praça para observar as crianças. Um daqueles pequenos seres cercados por cuidados exigiria dele o dobro da dedicação que já dispensava à mulher.
Ter um filho, naquele momento, implicava em perder tempo, ter disponibilidade, carinho, dinheiro e paciência; coisas que Julio parecia não estar muito disposto a oferecer. O casamento estava seguro, a vida estável, a casa era confortável e possuíam um cachorro para agitar seus dias. Para que ter um filho naquela hora?
Julio então percebeu o caminho só de ida que estava percorrendo, caberia agora a ele assumir seu papel como chefe de família. Depois do baque, o mais novo papai começou a enxergar com bons olhos a gravidez da esposa e planejou as atividades que poderia desenvolver com seu filho.
A barriga de Cíntia crescia. Num dia de consulta pré-natal, ela pediu ao marido que fosse buscá-la. Na clínica, Julio congelou a expressão ao ouvir da médica que aquela gravidez tão esperada não era verdadeira. A Dra. Célia, médica de Cíntia, descobriu que aquele era mais um caso de gravidez psicológica.
Julio, seu marido, queria entender aquele momento pelo qual esperou tanto tempo e em busca do qual aplicou suas economias, sua paciência com as crises da esposa e seu tempo livre com as incansáveis idas a especialistas. Desceu e cruzou com os vizinhos sorridentes, ganhou a Rua e caminhou até a praça para observar as crianças. Um daqueles pequenos seres cercados por cuidados exigiria dele o dobro da dedicação que já dispensava à mulher.
Ter um filho, naquele momento, implicava em perder tempo, ter disponibilidade, carinho, dinheiro e paciência; coisas que Julio parecia não estar muito disposto a oferecer. O casamento estava seguro, a vida estável, a casa era confortável e possuíam um cachorro para agitar seus dias. Para que ter um filho naquela hora?
Julio então percebeu o caminho só de ida que estava percorrendo, caberia agora a ele assumir seu papel como chefe de família. Depois do baque, o mais novo papai começou a enxergar com bons olhos a gravidez da esposa e planejou as atividades que poderia desenvolver com seu filho.
A barriga de Cíntia crescia. Num dia de consulta pré-natal, ela pediu ao marido que fosse buscá-la. Na clínica, Julio congelou a expressão ao ouvir da médica que aquela gravidez tão esperada não era verdadeira. A Dra. Célia, médica de Cíntia, descobriu que aquele era mais um caso de gravidez psicológica.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Isto sim é auto-ajuda
Seguindo os conselhos de algum livro de auto-ajuda famoso, Joana deu novo rumo à vida. Tomou coragem de se divorciar, comprou passagens para o nordeste, deixou a filha com o ex-marido e foi curtir. Foi se curtir.
Mala pronta. Sim, no singular, mala. Levaria apenas uma mala e isso era uma vitória para Joana, que esperava inaugurar seu novo-eu na Bahia. Com ela, estava viajando o livro da Marta Medeiros a tira-colo.
Os emails estavam todos respondidos e o taxi estava à espera lá embaixo, na portaria do prédio, rumo ao aeroporto, naquela manhã nublada de novembro. Iria ao encontro dos dias de férias que prometera há uns dois, três anos para si mesma, mas que nunca teve coragem de cumprir. O destino do corpo, o nordeste, era conhecido e bastava que o piloto soubesse o caminho. Mas quem disse que ela conseguiria manter a cabeça longe dos problemas daqui?
Curtindo muito e curtida de sol, depois de dois meses indo de praia em praia, da Bahia até o Maranhão, Joana começou a sentir que estava faltando algo. Os dois dias iniciais foram se esticando, passando uma semana, duas.
Quando viu, já estava criando raízes. Não faltava sol, nem águas, salgada e doce para Joana. Também não era falta de gente que ela sentia. Afinal, passando dois meses no nordeste, o que ela mais fez foi ver gente nova. Como ainda tinha muito o que visitar, ela achou que o que faltavam eram pontos turísticos registrados em sua câmera e na sua memória.
Assim, o fez. Pegou sua bolsa, junto com sua Nikon L110 e foi desbravrar o desconhecido, na tentativa de ocupar aquele vazio que permanecia. Olhava, admirava e registrava. Registrava, olhava e apagava. Um processo que a encantava. Conheceu muitos lugares especiais, porém, o que Joana não sabia era que estes momentos passavam.
Como o vento que lhe tocava, assim eram estes momentos: efêmeros,quase impossíveis de segurar. E aquele vazio, supostamente preenchido, permanecia lá... inconsciente, sombrio, complexo. Joana, no fundo, sabia que precisava de mais... algo além do que o livro de Marta podia oferecer.
Algo superior ao conteúdo de um livro, à aura de uma bela paisagem capturada por uma bela foto, através de um bom equipamento. Dinheiro, tinha. Marido, tinha. Empresa, também tinha. A segurança de uma vida mediana era tudo que não queria. E os ventos do nordeste moveram para sua cabeça a ideia de que havia se tornado tudo que não queria ser.
Chegou aos mais de trinta e concluía, na Bahia, que não construiu nada, que só havia reproduzido. Das fotos aos anseios de seus pais por uma filha competente e bela como as paisagens nordestinas; nada ali era seu de verdade. Joana não era quem queria ter sido. No entanto, sorriu. Pois pensou "ao menos não morri antes de descobrir que não sou eu".
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Vestido de Baile
Tânia Mara era uma mulher solitária, trabalhava como assistente social em um presídio situado na zona Norte da cidade. A única companhia que tinha era a do seu cão de estimação. Com os vizinhos, trocava algumas poucas palavras, e desde que se tornou viúva, recusou-se a conhecer outro homem.
Toda quinta-feira, Tânia acordava às seis da manhã e levava seu labrador para dar um passeio na praça em frente a seu prédio. Vez ou outra, nessas saídas, ela encontrava um velho amigo de infância fazendo exercícios. Ambos conversavam durante alguns minutos sobre as principais notícias da semana; mas o assunto, no final, sempre voltava aos tempos do colégio.
Bons tempos esses, em que a inocência, a despreocupação, as ilusões e as paixões adolescentes prevaleciam. No entanto, nem tudo foi tão bom naquela fase. Muitas vezes, no encontro dela com seu amigo, o assunto chegava ao mesmo ponto: o misterioso assassinato de Julia, uma pessoa muito próxima que perdeu a vida misteriosa e tragicamente na festa de formatura do 2º grau.
O assunto nunca fora esclarecido. Depois de tanto tempo, a conversa dos dois ex-colegas de classe acabava tomando apenas um ar de nostalgia. Tânia tinha certa desconfiança, pois Julia era a garota mais conhecida da escola, e ganhou ainda mais notoriedade depois de morta. O crime, chocante para a época, havia sido apontado pela polícia como um homicídio praticado por pelo menos sete pessoas. Quando se lembrou das circunstâncias e da repercussão em relação ao ocorrido, Tânia preferiu mudar de assunto.
Ao chegar em casa e soltar o labrador, Tânia foi ao quarto e tirou a roupa. Em seguida, olhou vidrada para a porta do armário e abriu-a, buscando, no fundo de uma gaveta, uma velha caixa repleta de recortes de jornal da época da escola. Com os papéis sobre a cama, ela olhou-se no espelho de corpo no canto do quarto, visão perdida, e relembrou como as meninas de sua turma a consideravam feia, a desmereciam, e de como naquele dia teve que ir ao baile sozinha, pois os meninos se envergonhavam de ir com ela.
Tânia, então, nua ainda, pegou o vestido de baile que pertencera a Julia, já amarelado, segurou-o diante de si e bailou, feliz, como se fosse a mais bela garota da escola inteira, a mais desejada de todas, assim como a ex-dona.
Toda quinta-feira, Tânia acordava às seis da manhã e levava seu labrador para dar um passeio na praça em frente a seu prédio. Vez ou outra, nessas saídas, ela encontrava um velho amigo de infância fazendo exercícios. Ambos conversavam durante alguns minutos sobre as principais notícias da semana; mas o assunto, no final, sempre voltava aos tempos do colégio.
Bons tempos esses, em que a inocência, a despreocupação, as ilusões e as paixões adolescentes prevaleciam. No entanto, nem tudo foi tão bom naquela fase. Muitas vezes, no encontro dela com seu amigo, o assunto chegava ao mesmo ponto: o misterioso assassinato de Julia, uma pessoa muito próxima que perdeu a vida misteriosa e tragicamente na festa de formatura do 2º grau.
O assunto nunca fora esclarecido. Depois de tanto tempo, a conversa dos dois ex-colegas de classe acabava tomando apenas um ar de nostalgia. Tânia tinha certa desconfiança, pois Julia era a garota mais conhecida da escola, e ganhou ainda mais notoriedade depois de morta. O crime, chocante para a época, havia sido apontado pela polícia como um homicídio praticado por pelo menos sete pessoas. Quando se lembrou das circunstâncias e da repercussão em relação ao ocorrido, Tânia preferiu mudar de assunto.
Ao chegar em casa e soltar o labrador, Tânia foi ao quarto e tirou a roupa. Em seguida, olhou vidrada para a porta do armário e abriu-a, buscando, no fundo de uma gaveta, uma velha caixa repleta de recortes de jornal da época da escola. Com os papéis sobre a cama, ela olhou-se no espelho de corpo no canto do quarto, visão perdida, e relembrou como as meninas de sua turma a consideravam feia, a desmereciam, e de como naquele dia teve que ir ao baile sozinha, pois os meninos se envergonhavam de ir com ela.
Tânia, então, nua ainda, pegou o vestido de baile que pertencera a Julia, já amarelado, segurou-o diante de si e bailou, feliz, como se fosse a mais bela garota da escola inteira, a mais desejada de todas, assim como a ex-dona.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Indiscrição
Todo dia o vizinho ficava olhando as pessoas saindo para o trabalho, academia, escola, faculdade, feira, supermercado. E ele sabia mesmo para qual lugar cada uma delas estava indo. Aquele jeito de procurar algo na pasta, o livro na mão, carrinhos, sacolas, a maneira de amarrar o cadarço do tênis, todas essas pequenas cerimônias diárias de saída de casa eram observadas com calma, diariamente.
A única pessoa que escapava da certeza dessa observação era Antônia, a moradora da casa em frente ao pequeno edifício do observador. Ela tinha quase sempre um ar distante, vivia solitária e usava roupas bem cuidadas, embora surradas pelo excesso de lavagem, como se quisesse tirar de si algum pecado, se purgar de alguma marca que trazia do passado. Para piorar, os objetos que ela levava consigo em suas saídas pouco ou quase nada indicavam de valioso.
O observador tentava, criava conjecturas; mas nenhuma delas era suficiente para entender Antônia. Sua figura não era tão previsível como a dos demais suburbanos da vizinhança, e isso arrasava com o único orgulho cabível a alguém que passa o dia a analisar os outros: não saber quem é nem o que faz a vizinha da frente.
Para o vizinho, era difícil compreender a irregularidade dos horários em que Antônia transitava, sempre com sua bolsa de couro pendurada no braço direito e com uma pasta amarela segurada com firmeza. Mas numa manhã de domingo tudo mudou. O observador ouviu um som incomum vindo da rua e, ao chegar à calçada, viu a vizinha, que andava a passos largos e com uma fisionomia distinta daquela que lhe causava aflição. Antônia estava com tanta pressa que não percebeu que sua pasta amarela acabava de cair.
Ao abri-la, havia de tudo um pouco: papéis, fotos, documentos, uma revista de palavras cruzadas, uma caneta Bic, um recorte de jornal e um CD. Afinal, quem era essa pessoa? - pensava ele. Sua curiosidade chegava ao extremo. Era inegável a vontade de saber mais sobre a misteriosa vizinha.
Porém, já diziam os antigos, "a curiosidade mata". Não resistiu e resolveu colocar o CD em seu computador, mas antes de disso, teve um momento de dúvida. Sempre olhara as pessoas, mas nunca rompia a barreira do panóptico. Olhar sem ser visto e sem interferir na vida de ninguém era uma tentação e um refúgio para sua indiscrição.
No CD havia vários vídeos em que a dona da pasta era facilmente identificável. Em quase todos, Antônia xingava, mexia em objetos em uma sala, quebrava pratos e xingava mais. O vizinho reparou que vários trechos eram repetidos. Antônia nunca se importaria com a indiscrição dele, mesmo que não tivesse permissão para vê-la. Ela vivia da exposição para desconhecidos. Era atriz.
A única pessoa que escapava da certeza dessa observação era Antônia, a moradora da casa em frente ao pequeno edifício do observador. Ela tinha quase sempre um ar distante, vivia solitária e usava roupas bem cuidadas, embora surradas pelo excesso de lavagem, como se quisesse tirar de si algum pecado, se purgar de alguma marca que trazia do passado. Para piorar, os objetos que ela levava consigo em suas saídas pouco ou quase nada indicavam de valioso.
O observador tentava, criava conjecturas; mas nenhuma delas era suficiente para entender Antônia. Sua figura não era tão previsível como a dos demais suburbanos da vizinhança, e isso arrasava com o único orgulho cabível a alguém que passa o dia a analisar os outros: não saber quem é nem o que faz a vizinha da frente.
Para o vizinho, era difícil compreender a irregularidade dos horários em que Antônia transitava, sempre com sua bolsa de couro pendurada no braço direito e com uma pasta amarela segurada com firmeza. Mas numa manhã de domingo tudo mudou. O observador ouviu um som incomum vindo da rua e, ao chegar à calçada, viu a vizinha, que andava a passos largos e com uma fisionomia distinta daquela que lhe causava aflição. Antônia estava com tanta pressa que não percebeu que sua pasta amarela acabava de cair.
Ao abri-la, havia de tudo um pouco: papéis, fotos, documentos, uma revista de palavras cruzadas, uma caneta Bic, um recorte de jornal e um CD. Afinal, quem era essa pessoa? - pensava ele. Sua curiosidade chegava ao extremo. Era inegável a vontade de saber mais sobre a misteriosa vizinha.
Porém, já diziam os antigos, "a curiosidade mata". Não resistiu e resolveu colocar o CD em seu computador, mas antes de disso, teve um momento de dúvida. Sempre olhara as pessoas, mas nunca rompia a barreira do panóptico. Olhar sem ser visto e sem interferir na vida de ninguém era uma tentação e um refúgio para sua indiscrição.
No CD havia vários vídeos em que a dona da pasta era facilmente identificável. Em quase todos, Antônia xingava, mexia em objetos em uma sala, quebrava pratos e xingava mais. O vizinho reparou que vários trechos eram repetidos. Antônia nunca se importaria com a indiscrição dele, mesmo que não tivesse permissão para vê-la. Ela vivia da exposição para desconhecidos. Era atriz.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Siamesas
Três meninas voltavam para casa a pé, ladeando o milharal no caminho da escola para casa. Eram jovens e cheias de vida. Naquela tarde quente de verão não pensavam em mais nada além de seus sonhos, de voar para muito além do vilarejo em que moravam.
Apesar de ser um caminho a que estavam acostumadas, as três sempre sentiam um certo medo ao passar pelo milharal. Por mais que pudessem facilmente se esconder na plantação, havia um pequeno receio compartilhado por elas todas as vezes em que vinham por aquele lugar sozinhas. Embora o medo fosse recente, era comum às três e só aumentava.
A vontade de partir durou muitos anos, até que as meninas se tornaram três lindas jovens e resolveram aprender uma profissão, após o que foram para a capital. Mal sabiam elas que seu temor tinha uma origem concreta.
Desde a infância, Miroslav, o filho do dono da fazenda por que passavam, as espreitava obcecado, por entre as palhas verdes do milho, de longe, dia após dia, sorrateiro.
O turco, como era conhecido, se alimentava da presença delas, apesar de sua rápida passagem, e do perfume que seus cachos louros espalhavam pelo ar. Nos sonhos reclusos, ele as embalava, róseas, juntas, tenras e sufocantemente belas. Para o jovem tímido, não bastava uma: desejava as três com o mesmo tórrido incêndio.
Nesse desejo, que era desconhecido pelas amigas, estava a razão do medo que sentiam ao cruzar o milharal. Ao deixarem a cidade e irem trabalhar em lugares diferentes, se tornaram vítimas mais fáceis, pensava o turco. Sua principal obsessão era pelos longos e louros cabelos das amigas.
Miroslav foi para cidade também e conseguiu um emprego em uma loja de tecidos de um parente armeno. Lá ele passou a seguir a cada dia uma das amigas e pode planejar com calma como manteria as três juntas e perto dele. Em uma mesma semana ele pôs seu plano em prática. As três foram pegas, segunda, terça e quarta, e localizadas depois em seu quarto, no fundo da loja do armeno, com os cabelos costurados. Siamesas, como o turco queria.
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