Carla
entrou no trem correndo, como sempre acontece, depois de levantar cedo,
acordar os filhos, sair de casa com o marido para deixar as crianças na
escola, quase cair ao atravessar a rua, subir escadas, revirar a bolsa
por causa do vale-transporte, ignorar olhares intencionados e mal
intencionados e subir escadas. Pronto, tudo isso em apenas um décimo do
dia em que luta para ficar com os olhos meio abertos.
Cansada
da rotina puxada, Carla percebeu que algo faltara a ela. Não era uma
roupa, uma casa, um emprego: era apenas alguns momentos de descanso.
Naquele dia, resolveu que precisava de uma dose de coragem e disse a si
mesma: "hoje, vou me dar 24 horas de liberdade!". Então resolveu não
descer no ponto em que normalmente descia. Ela estava livre, não
existiam pontos que a pudessem deter. Carla não sabia aonde ia, mas
tinha certeza que chegaria a algum lugar.
Logo
que chegou na Princesa Isabel, Carla passou as mãos no cabelo, arrumou a
barra da saia, puxou a corda e desceu do ônibus na metade do caminho,
bem distante do trabalho. O trajeto da Penha ao Leblon, normalmente duas
horas de seu dia, foi encurtado. Carla começou a caminhar do Leme em
direção ao Posto 6. Depois de quase uma hora de caminhada, puxou uma
pasta da bolsa, colocou sobre o banco e ficou olhando para o rosto
imóvel do Drummond.
Ali
pensou sobre poesia, arte e várias coisas das quais gostava, mas que
tinham se perdido no tempo e nas obrigações. Mas aquele dia não era o
momento de pensar em obrigações, afinal era um dia de liberdade. Carla
resolveu tirar os sapatos e caminhar na areia da praia. Foi até o mar e
as águas frias de Copacabana molhavam delicadamente os seus pés. Naquela
hora, Carla percebeu que a felicidade estava em coisas simples e que às
vezes, para sermos felizes, precisamos pensar um pouco em nós.
No
meio dos pensamentos, o celular tocou. Era o chefe. Carla atendeu
pensando na resposta que daria ao choque de realidade. Afinal, as
obrigações sempre batem a porta até mesmo dos libertos. As 24 horas
teriam de ficar para trás e se resumir nas ultimas duas, mas quem se
importa com o tempo? Carla estava livre de dentro pra fora.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Samba
Esse conto também foi publicado entre os Minicontos Perversos, e está fazendo um pequeno sucesso entre os perversos leitores das maldades e safadezas que o Gustavo apresenta a todos. Então, depois que você ler essa história, dê uma passada por lá, mas volte aqui, ok? Não deixe o samba morrer.
A roda de samba teve fim. Dois paradoxos. O primeiro porque imaginamos que tudo que é redondo não termina. O segundo foi o próprio término do sambão. O churrasco do Aldemar tinha cerveja de sobra. A festa rolou ao som de muita música e carne, às vezes bem, às vezes mal passadas. Nem todo mundo foi embora sabendo o que fez o samba morrer. Ciúmes.
Aldemar amava Rosa, que por fim também amava Aldemar. Mas vinha sentindo uma mudança. Não sabia se o clima, se o vento invertera a direção ou se a música tocava diferente ultimamente. Só se sabia estranha. Algo em seu corpo parecia o rejeitar subitamente, o que só amenizava com algumas cervejas. Ah, como vinha bebendo ultimamente! Naquele dia, ali, no samba, ela percebeu-se olhando para um dos músicos.
Era um moreno alto, esbelto, de olhos verdes e penetrantes. Tão penetrantes que pareciam invadir a alma de Rosa num simples golpe de vista. De certa forma, aquele olhar reunia nela um misto de vergonha, de medo e de tesão, sensações que há muito não sentia nos olhos frios e autoritários de Aldemar. Aliás, de Aldemar, nos últimos tempos, só tem recebido olhares de indiferença.
Rosa já tinha bebido um pouco a mais e, mesmo sabendo que Aldemar estava por lá, resolveu se engraçar com aquele moreno que lhe provocava arrepios. Chegou no meio da roda e sambou como nunca mais tinha sambado pro Aldemar. Logo ela recebeu olhares do Jair, que já cantava com mais sensualidade. Jair largou o microfone, levantou e os dois pareciam estar completamente sozinhos na roda, se sentindo.
Aldemar estava feliz. Seu corpo pulsava ao ritmo do samba. Ele sorria olhando os amigos e aquela linda morena a quem amava, a seu jeito. Rosa estava especial aquele dia. A morena dançava como nunca, rodopiante e sensual. Excitava-o tê-la ao lado. Seu corpo, sorriso, suor, seu olhar. De repente percebeu que Rosa também sorria. Um sorriso apontado noutra direção. Na outra ponta do olhar da Rosa, Aldemar viu um Jair e um cavaquinho.
A roda de samba teve fim. Dois paradoxos. O primeiro porque imaginamos que tudo que é redondo não termina. O segundo foi o próprio término do sambão. O churrasco do Aldemar tinha cerveja de sobra. A festa rolou ao som de muita música e carne, às vezes bem, às vezes mal passadas. Nem todo mundo foi embora sabendo o que fez o samba morrer. Ciúmes.
Aldemar amava Rosa, que por fim também amava Aldemar. Mas vinha sentindo uma mudança. Não sabia se o clima, se o vento invertera a direção ou se a música tocava diferente ultimamente. Só se sabia estranha. Algo em seu corpo parecia o rejeitar subitamente, o que só amenizava com algumas cervejas. Ah, como vinha bebendo ultimamente! Naquele dia, ali, no samba, ela percebeu-se olhando para um dos músicos.
Era um moreno alto, esbelto, de olhos verdes e penetrantes. Tão penetrantes que pareciam invadir a alma de Rosa num simples golpe de vista. De certa forma, aquele olhar reunia nela um misto de vergonha, de medo e de tesão, sensações que há muito não sentia nos olhos frios e autoritários de Aldemar. Aliás, de Aldemar, nos últimos tempos, só tem recebido olhares de indiferença.
Rosa já tinha bebido um pouco a mais e, mesmo sabendo que Aldemar estava por lá, resolveu se engraçar com aquele moreno que lhe provocava arrepios. Chegou no meio da roda e sambou como nunca mais tinha sambado pro Aldemar. Logo ela recebeu olhares do Jair, que já cantava com mais sensualidade. Jair largou o microfone, levantou e os dois pareciam estar completamente sozinhos na roda, se sentindo.
Aldemar estava feliz. Seu corpo pulsava ao ritmo do samba. Ele sorria olhando os amigos e aquela linda morena a quem amava, a seu jeito. Rosa estava especial aquele dia. A morena dançava como nunca, rodopiante e sensual. Excitava-o tê-la ao lado. Seu corpo, sorriso, suor, seu olhar. De repente percebeu que Rosa também sorria. Um sorriso apontado noutra direção. Na outra ponta do olhar da Rosa, Aldemar viu um Jair e um cavaquinho.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Noiva
Nos meus sonhos, seria um lugar com janelas e portas transparentes, para que pudesse contemplar toda a vista que tenho lá de fora. Uma casa, aquelas com uma vista pro mar,acho que seria pedi muito (não custa nada sonhar). Gostos? Temos diferentes. Ele adora café e eu, chá, mas ambos podem ser tomados em nossas canecas.
No quarto, uma mesinha daquelas que só servem mesmo para bater com o joelho, para eu me lembrar do meu quarto de solteira, o qual não gostaria nunca de esquecer, pois foram épocas boas. Lençóis claros como o nosso respeito, respeito esse que foi conquistado com muito amor. Eu sonho com ele me acordando, daquele jeitinho que só ele sabe. Quero muita coisa, muitos sonhos e quero muita realidade também.
Se houver problemas, podem até ser muitos, mas que possamos esmagar as dúvidas, os medos, as contas a pagar, os planos fracassados e o que mais quiser afrontar a gente. Nossa casa será lugar de grandes confusões de alegria.
E confusões e alegrias, é claro, ficam mais saborosas com filhos. Desejo logo um casal de gêmeos, porque não quero ficar gorda e deformada com duas gravidezes seguidas. Não há amor que resista anos a fio sem o tempero da atração física, não é verdade? Não que eu me importe com essa coisa de padrão de beleza, nada disso. Mas, como dizem, a propaganda é a alma do negócio!
Dinheiro? Nem muito, nem pouco. Só o suficiente para ser feliz, sem ter que pedir felicidade aos outros. Quero que tudo seja só nosso, feito por nós e usufruído por nós. Afinal, um pouco de egoísmo é necessário e nunca matou ninguém.
Quero, por fim, a eternidade. Eternidade do amor, dos singelos momentos de felicidade, de um doce olhar e da companhia dele. Porque história como a nossa, o tempo não leva. Ele eterniza.
E, assim, prometo ser fiel ao amor dele, mesmo que a morte nos separe.
No quarto, uma mesinha daquelas que só servem mesmo para bater com o joelho, para eu me lembrar do meu quarto de solteira, o qual não gostaria nunca de esquecer, pois foram épocas boas. Lençóis claros como o nosso respeito, respeito esse que foi conquistado com muito amor. Eu sonho com ele me acordando, daquele jeitinho que só ele sabe. Quero muita coisa, muitos sonhos e quero muita realidade também.
Se houver problemas, podem até ser muitos, mas que possamos esmagar as dúvidas, os medos, as contas a pagar, os planos fracassados e o que mais quiser afrontar a gente. Nossa casa será lugar de grandes confusões de alegria.
E confusões e alegrias, é claro, ficam mais saborosas com filhos. Desejo logo um casal de gêmeos, porque não quero ficar gorda e deformada com duas gravidezes seguidas. Não há amor que resista anos a fio sem o tempero da atração física, não é verdade? Não que eu me importe com essa coisa de padrão de beleza, nada disso. Mas, como dizem, a propaganda é a alma do negócio!
Dinheiro? Nem muito, nem pouco. Só o suficiente para ser feliz, sem ter que pedir felicidade aos outros. Quero que tudo seja só nosso, feito por nós e usufruído por nós. Afinal, um pouco de egoísmo é necessário e nunca matou ninguém.
Quero, por fim, a eternidade. Eternidade do amor, dos singelos momentos de felicidade, de um doce olhar e da companhia dele. Porque história como a nossa, o tempo não leva. Ele eterniza.
E, assim, prometo ser fiel ao amor dele, mesmo que a morte nos separe.
Esses são os meus votos do nosso casamento.
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